Sobre AUTOCONHECIMENTO - relato autobiográfico -

Sobre AUTOCONHECIMENTO - relato autobiográfico -

Ilusão:
Com 18 cheguei a Madrid. A estação de Atocha parecia um enxame de pessoas que se dirigiam para apanhar o seu comboio, o da manhã, o que às vezes, apenas por uns segundos, perdem. Dei por mim a decifrar as mensagens no ar e nos painéis electrónicos e a tentar assimilar tanta informação ambiental…a respirar…cada vez mais rápido, e a perguntar-me: qual será o “meu comboio”? Apenas 12 anos depois consegui responder-me.

Sim, porque em Madrid as pessoas respiram, mas fazem-no a um ritmo alucinante, até às vezes acho que só inspiram, que se esquecem de expirar. Inspirar tanto tanto, não pode ser bom 🙂 Com o passar do tempo, o comprovei.

Os anos na Universidade foram, sem qualquer dúvida os melhores da minha vida. Porquê? Liberdade, entusiasmo e uma inocência residual que permitia saborear sem agridoces aqueles maravilhosos momentos transformados em meses de matemática e poesia em partes iguais. E como diz o antigo ditado popular, de Madrid ao céu…

Com 21 achava que o meu sono era dirigir um Hotel. Hoje parece que foi noutra vida. Sentia-me forte, com uma energia capaz de levar a montanha mais “russa” até ao mesmo Maomé. O fervedouro de oportunidades que era Madrid recém começado o século XXI era o caldo de cultivo perfeito para a ambição, o ego e uma meteórica carreira profissional. E assim foi.

Após finalizar o Mestrado em Gestão e Direção Hoteleira na Universidade Politécnica, o horizonte de alguma forma já estava desenhado: Diretora de Hotel. Era um caminho definido onde o que menos importava era viver. Tratava-se de “ter sucesso”, significasse isso o que for. É dito que a vida é tudo aquilo que nos acontece quando tentamos levar a cabo outros planos.
Trabalhei durante 7 anos nos escritórios corporativos de uma multinacional hoteleira. Tirando uma fase como trainee, nunca cheguei a trabalhar num Hotel. Sonho ligeiramente truncado. Mas às vezes a realidade supera os sonhos e até consegue ser aparentemente melhor. O meu horário, como o de muitos, das 9 às 19. Geria a minha própria equipa, tinha tanta responsabilidade como autonomia, uma boa posição, um ordenado aliciante, e um futuro promissor na empresa que me tinha ajudado e visto crescer tanto em tão pouco tempo, e provavelmente no sector.

Com 27 anos tive a “sorte” de realizar um programa de Desenvolvimento Directivo e tudo pintava muito mas muito bem. Apenas havia um “mas”. Após vários meses na suspeita e na luta pelo contrário, um dia de Março, durante um almoço com uns clientes num dos hotéis de Sevilha, tive um momento de clarividência. Não conseguia beber água, não conseguia engolir nada. Não era lá onde devia continuar o meu caminho, pois não estava em paz, nem era feliz. Se assim fosse, teria ficado “encantada” de manter a minha carreira de astronauta, de trabalhar das 9 às 25, e de a apanhar o AVE mais vezes de ida que de regresso…

É aqui onde começa esta minha história.

BurnOut
Ponto de não retorno.
Quando chegas ao burnout em qualquer área da tua vida, há sempre pelo menos um ponto, se não vários, de não retorno. Estes pontos são em certa forma os meus preferidos, porque são os que, por incrível que pareça, nos permitem avançar. São muito tramados estes pontos, mas são de importância vital.

No último ano de trabalho em Madrid foram contadas as vezes que dormia na cama. A cama em sim mesma produzia-me insónias. Por isso chegava a casa, mal jantava e deitava-me no sofá a ver um bocado “la tele” até que adormecia vestida. Acordava sempre por volta das 2 da madrugada e me limitava a aguardar a que ficasse de dia, pelo que muito raramente dormia mais do que 4 horas por noite. Assim todas as noites. Assim durante meses.

Desfazia uma mala para fazer outra e a minha vida pessoal e social era praticamente inexistente. Era oficial, estava na fase 1 do burnout. Às 7 da manhã tocava o despertador por motivos de rotina mais que funcionais, despia-me para voltar a vestir-me, sem passar pelo pijama. Todos os dias no chuveiro contava uma história para mim, todo o que precisava ouvir para poder fazer frente ao dia. Cada dia o duche era um bocadinho mais demorado…

(Conto este processo ao pormenor, porque sei que aí fora houve, há e haverá muitas pessoas que silenciosamente tenham passado, estão a passar ou passarão pelo mesmo – sirva para “destabulizar”).

Era consciente de tudo o que me estava a acontecer. Absolutamente. Mas não era consciente de que não seria forte o suficiente para me manter íntegra, para me manter eu, inteira, como me conhecia até aquele momento. Lembrava-me a mim própria o bom que era o trabalho que tinha, o privilégio de poder desenvolve-lo com reconhecimento, o quanto gostava dele e a sorte que tinha de estar naquele que achava que era o meu lugar.

Aos poucos comecei a ter uma série de sintomas físicos e emocionais, cada vez mais intensos. Eu queria nega-los até perceber que podemos nadar contra a corrente, mas se o fizermos, o oceano tornara-se infinito.

Ouvi dizer que a “emocionalidade” estupidifica e não posso estar em maior desacordo, porque são as emoções as que nos revelam melhor o que precisamos saber. Aquém delas, muito do que vivemos é apenas prefabricado, ou dominado pela anestesia do viver no modo “máquina de lavar”.

Cheguei ao ponto da hipersensibilidade. Recentemente foi descoberto cientificamente que traumas ou situações de esgotamento ou desgaste extremo nas nossas vidas podem originar alterações genéticas significativas do nosso ADN. O ser humano que habita nesse momento crítico, faz uma espécie de reset. Hoje, sou PAS (pessoa altamente sensível) a tudo o que me rodeia. Isto visto assim, até parece interessante, mas requer de doses elevadas de autoconhecimento e autorregulação para minimizar a dor e optimizar a existência.

A hipersensibilidade é como os pontos de não retorno, tramada, mas essencial para viver a vida com o toque de um dom, o da transformação, pela empatia extrema às vezes e pela capacidade de contraste entre as duas percepções ou níveis de consciência: a que se corresponde com a vida “de antes” e a que está presente na vida “de agora”, vulnerável, mas mais autêntica, livre e real. A natureza no seu estado puro, a conexão com as origens e com as dimensões mais profundas do Ser, com aquilo que cheira a verdade e a essência em nós mesmos. É a força em si mesma, apresentada de uma forma subtil. Tive que aprender a escolher.

Tenho que dizer que os anos que representaram a minha carreira profissional até aquele momento foram plenos, ricos e cheios de oportunidades e de aprendizagens muito boas. Hoje sei que os motivos da minha saída foram intrínsecos. Não tinham nada a ver, ou muito a ver, com a empresa que recentemente nesse mesmo ano me tinha oferecido uma nova oportunidade de promoção interna. Vinham sim de mim, de dentro, do meu propósito de vida e do meu processo de transformação, através do poder da superação.

Após vários meses de luta comigo mesma, com o espelho e com o mundo, decidi sair. Venci-me pela extenuação. Sair sem saídas. Não fazia ideia do que vinha a seguir, do que queria fazer, do que ia fazer. Apenas sabia que tinha que comprovar que o céu continuava azul, precisava de comprovar isso. Sentia muita falta de conhecer a parte original das coisas, de mim. Foi difícil, muito. Contava apenas com os meus dois i´s: o meu instinto e a minha intuição. Acho que inconscientemente descansava neles porque de outra forma não percebo como consegui encarar a sociedade, a minha família – a parte mais difícil – e a todos os que não acreditaram e ainda não acreditam que a minha decisão de deixar um “super emprego” em plena crise, fosse uma questão de “vida ou morte” naquele momento.

But that external success without interior significance is a hollow victory.
What’s the point of winning in the world while losing yourself?
(Robin Sharma)
Saí da Meliã Hotels International a 9 Junho de 2010.

Cura e Superação
Às vezes só valorizamos o que é verdadeiramente importante quando o deixamos de ter, e isto é um facto. No meu caso foi assim. A perda de saúde obrigou-me a fazer um reset físico e mental, onde apenas a mudança fazia sentido para voltar a ter alguma qualidade de vida.

Cheguei à Invicta a 10 de Setembro de 2010. Doente. Esgotamento do sistema nervoso, com todos os efeitos colaterais que isto traz, físicos, hormonais, psicológicos…Estiquei demasiado a corda. Aprendi. O que aconteceu entre Junho e Setembro nem sei, não tenho bem a noção de onde estava naquele momento. Apenas lembro-me de ter feito O Caminho de Santiago como uma espécie de purgatório, promessa e salvação.

Perante a opinião de alguns médicos, que decido não considerar por própria conveniência, pois caso contrário ainda hoje estaria enfiada nos comprimidos, ponho em marcha um plano de auto-cura sem saber que seria ao mesmo tempo um dos maiores descobrimentos da minha vida. Mudar hábitos como a alimentação ou a gestão emocional foi imprescindível para voltar a estar bem. Isto foi e ainda é um caminho longo de disciplina, paciência, muita aceitação e acomodação. É aqui onde o Yoga entrou na minha vida, e ficou.

Hoje sou professora desta disciplina milenar e sinto a responsabilidade de passar os seus ensinamentos, por tudo o que a mim me têm aportado. YOGA & Co. faz parte também da MOLA-Human Lab.

A MOLA é o resultado de 16 anos de background. A sinergia de ambos, MOLA e YOGA & Co. tem alma e propósito. É muito importante sentir o propósito desde dentro. Sinto Amor pelo que faço e isso é a melhor fonte de motivação. É importante também ver que podemos utilizar as nossas lições aprendidas em beneficio dos outros, e ao mesmo tempo sentir satisfação, realização e integração plena. Que a minha experiência de vida e o conhecimento adquirido possam servir para melhorar o dia-a-dia de Pessoas e Organizações é uma dádiva. Sou muito grata.

A Humanidade precisa reconectar-se consigo própria.
Precisamos voar.

Neo: ¬Por quê me doem os olhos?
Morphews: Porque nunca os tens usado.

“A vida coloca-nos provas. Ignora-las é como deixar de viver, desertar do nosso caminho. No filme de Matrix, o descobrimento da realidade faz vomitar e quase desmaiar ao protagonista. O oráculo diz exactamente o que ele precisa de ouvir, como a vida faz connosco. Quando a consciência se expande, não é possível voltar atrás” (Thiago Duarte).

Neo, em breve vais perceber como eu, que há uma diferença entre conhecer o caminho, e seguir esse caminho”