TECNOLOGIA E FATOR HUMANO - O Caminho do Meio

TECNOLOGIA E FATOR HUMANO - O Caminho do Meio

Ao nível das Organizações, uma das suas pedras basilares –as interações relacionais– está a mover-se para o domínio desmaterializado do digital. Se repararmos bem, as empresas são uma forma mais sofisticada de vilas, bairros, pueblos, etc, onde tendo em conta um objetivo comum, um conjunto de pessoas desmultiplica uma série de competências várias de forma a se atingirem resultados que possam beneficiar essa mesma “tribo”.

Em termos evolucionários, apenas passaram alguns minutos entre sermos um conjunto de seres curiosos e super competentes em avaliar e compreender cada gesto e intenção dos outros, para sermos agora uma espécie mais solitária, onde cada um de nós está super focado no seu ecrã e nas dinâmicas que lá acontecem.

Todos temos noção que a tecnologia é um enabler de muitos dos avanços que nos beneficiam como humanos.
Mas a tecnologia é também um fator de erosão de algumas das nossas necessidades mais básicas.

A famosa oxitocina – “hormona da felicidade e do bem-estar” – não é gerada de forma automática pelo nosso organismo. Ela possui triggers como um sorriso de alguém, um abraço, um toque, uma boa conversa, uma reflexão que advém de uma boa pergunta que alguém nos faz, sentir os passos que caminhamos, e outras sensações corporais associadas ao ar livre e natureza.

Fisiologicamente necessitamos desta e de outras substâncias para sentir confiança em nós e nos outros.

Quando as pessoas interagem cinestesicamente – através de um “passou bem”, um “dá-me 5” ou outro tipo de manifestação de aceitação e segurança – as hormonas do bem-estar ou de flow são libertadas, promovendo sensações de pertença, promovendo de forma intuitiva e espontânea, uma interação e processos colaborativos fantásticos para as empresas.

Alguns “efeitos secundários” destas interações são o otimismo, a paciência, a resiliência e a capacidade dos profissionais para utilizar de forma mais proveitosa as lições aprendidas e a sua inteligência emocional, o que por sua vez, vai reduzir os níveis de cortisol (a nossa hormona do stress) em prol do nosso ecossistema: físico, mental, emocional e até intuicional.

A questão é que muito dificilmente estas valências acontecem em vídeo-conferencias, conference calls, chats, messengers ou e-mails. As tecnologias são fabulosas para disseminar e partilhar informação. As “emoções” que elas proporcionam não são de versão premium, como às vezes cometemos o erro de pensar.

São as conexões reais e presenciais que construíram o ADN da nossa espécie e a evolução do mesmo. Fomos aqueles que conseguiram atingir um estágio máximo de relação, e não apenas de inteligência e inovação, de entre todos os seres desta planeta através do desenvolvimento da capacidade de nos relacionar de uma forma mais complexa e profunda.

O melhor investimento que podemos realizar numa Organização passa pelo Desenvolvimento das Pessoas a través, por sua vez, do Desenvolvimento das Interações Sociais: fazer questões, escutar de forma ativa e atenta, dar e receber feedback, valorizar em público e avaliar o que se pode fazer melhor em privado, são abordagens que só necessitam de um único tipo de investimento – tempo e estarmos presentes e atentos aos outros.

Estamos perante um paradoxo:

Nos Negócios, os social media e a integração dos canais digitais são vistos como sendo o Santo Graal, pelo baixo investimento económico tendo em conta a abrangência de público que alcança.

Mas desde o ponto de vista da produtividade e performance de um profissional, as empresas que promovem as Interações Relacionais Humanas e que desenvolvem a sua Liderança e Cultura de forma a estarem alinhadas com este propósito, são aquelas que lideram também as suas respetivas Áreas de Negócio. E mesmo que não as liderem, mantêm-se perenes e sólidas quando necessário, e ágeis e disruptivas na mudança.

Nos últimos anos a palavra Equilíbrio tornou-se bastante importante para mim. Nasci com uma sofreguidão de sentir, sorver e experienciar e cresci a pensar que isso fazia a minha vida e a vida dos outros melhor, mais intensa e completa.

Hoje sinto e penso de forma diferente. Acredito que existe um ritmo próprio e natural para as coisas, que objetivos não devem atropelar valores, que a aceitação é mais saudável que insistir no que não controlamos. E que existem coisas que de facto controlamos e que não devemos aceitar desistir delas – O Caminho do Meio, pois o verdadeiro foco está entre a Agitação e a Serenidade.

Por isso conversemos, interajamos, reflitamos, imaginemos quais as coisas importantes para que um profissional possa alinhar a sua performance com o propósito. E apenas quando essas estratégias estiverem definidas, entreguemos à tecnologia a tarefa de as distribuir e disseminar por todas as partes interessadas.

“Eu temo o dia em que a tecnologia ultrapassar a interatividade humana. O mundo terá uma geração de idiotas.” (Albert Einstein)